quarta-feira, 17 de agosto de 2016

VOLTAS OLÍMPICAS


Precisou acontecer uma olimpíada no Rio pra eu voltar a escrever neste blog. Não pra falar de esporte, nem desta ou daquela disputa, mas da vida, das voltas que ela dá.
Imagine a Rio 2016 como uma série de tv, dessas bem feitas que nos surpreendem a cada episódio, dessas em que protagonistas apaixonantes de repente são derrubados, sem piedade. Quantas histórias desfilam diante de nós, despertando admiração e reflexão.
Desde a celebrada escolha da cidade-sede, passando por milhões de turbulências, intrigas, dúvidas e roubalheiras, entrando na espetacular festa de abertura e desembocando na paixão dos atletas que, diferentemente dos políticos, nos representam. De uma hora pra outra, vemos cair as favoritíssimas meninas do futebol e do vôlei, enquanto, como numa daquelas caixas-surpresa, saltam pro pódio um atleta com vara e um boxer, e duas duplas de vôlei de praia avançam pra disputar o ouro. Dor de um lado, alegria do outro. Aniversários e velórios, pra ninguém esquecer que tudo é relativo, efêmero. No meio disso tudo, parte João Havelange, exatamente durante o evento que ajudou a trazer pra cá, alegando que seria o maior presente para a comemoração do seu centenário. Se morresse em outra época, teria mais espaço na imprensa. Difícil competir com os dramas e glórias dos campeões.
Como acredito que as histórias são o melhor treinamento para a vida, vejo histórias e vida passando pelas arenas olímpicas, com todos os seus mistérios, injustiças, e heróis. Vejo os vilanizados do futebol masculino recuperando o status de esperança de redenção. Vejo o choro e o sorriso misturados ao suor, tudo oscilante, mandando as certezas pro espaço, pra ninguém se esquecer de que somos todos pequenos e ao mesmo tempo gigantes.

*Foto buscada no Google

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O QUE DIRIA A PRESIDENTE PIXULECA EM SEU PRONUNCIAMENTO NO DIA DA PÁTRIA?


"Quero fazer aqui minha saudação ao 7. Esse número escolhido por D. Pedro I para o dia do seu grito de independência num mês que não é nove (senão seria novembro), mas legitimamente sete, de setembro. E por que sete? Porque é o número cabalístico do que a bíblia considera como inumerável, escolhido por Walt Disney pra quantidade de anões em volta da menina Branca de Neve, pelo charmoso agente secreto britânico 007, pela Igreja com os famosos sete pecados capitais (que meu governo, dando continuidade ao trabalho do presidente Pixuleco, tem combatido sem tréguas nessa capital do Brasil, tão cheia de capitalismo selvagem, civilizado e de todos os tipos capitalismo que o homem sapiens inventou). Enfim, saudar o 7, que não por simples coincidência é o percentual de minha aprovação neste momento em que grandes estadistas como eu, o companheiro Maduro da Venezuela, e tantos outros líderes como o querido bolivi, bolivario... vocês sabem, aquele da Bolívia, o Morales, temos enfrentado os efeitos da crise internacional que injustamente nos atinge.
Sete por cento de setembro é um dia - e um índice - inesquecível para uma mulher como eu, que não tem nada a temer, mas morre de medo do Temer, esse vice que indiscutivelmente é uma temeridade. E quem disser que 7 é número de mentiroso só pode estar querendo furar meu balão. A esses eu respondo como D. Pedro às margens do Ipiranga. Se ele ergueu a espada, eu ergo a mandioca. Se ele gritou "independência ou morte", eu grito: "coração valente", "pátria educadora". D. Pedro teve um slogan só, eu tenho dois. E, se meus assessores me ajudarem, hei de chegar a sete slogans, a inflação há de ultrapassar os 7%, o dólar talvez chegue a 7 reais, e o PT há de continuar pintando o sete por muitos e muitos anos."

sábado, 5 de setembro de 2015

TODOS NO MESMO BARCO.


No início do nazismo, o mundo ficou do mesmo jeito: observando o nascimento da loucura como algo distante que não chegaria a afetar nossas vidas, talvez uma oportunidade pra se ganhar algum dinheiro com aquele baixinho teatral com seu bigode ridículo, quem sabe até vendendo-lhe matéria prima para a fabricação de armas.


Os que sofriam eram minorias das quais não fazíamos parte.
Como agora: briga de religiosos extremistas, gente que vive em permanente conflito numa região de onde só nos interessa o petróleo. Gente que deve ser mantida à distância, porque traz consigo um rastro de encrenca.


No início do nazismo, não havia a Organização das Nações Unidas.
Ainda bem que agora temos esse organismo internacional que nos protege de equívocos como aquele que levou o mundo à tragédia da Segunda Grande Guerra. A mesma ONU que intervém quando algum interesse econômico dos países que a comandam é ameaçado, e que se faz de morta quando seres humanos são expulsos de suas casas, violentados, torturados e brutalmente assassinados por um grupo insano que quer se tornar Estado e impor sua visão de fé a todos os habitantes do planeta.


No início do nazismo, o mundo tinha a desculpa de desconhecer as proporções que a desumanidade pode atingir. Os campos de extermínio não apareciam na mídia como os vídeos das orgulhosas execuções do "estado islâmico". As pessoas não faziam perguntas como: Quem está financiando esses caras? De onde vêm tantas armas? A quem interessa que a selvageria continue crescendo?
E afinal, onde está a ONU?
No início do nazismo, quase ninguém notava que o problema tomava forma num país de língua e tecido social à primeira vista incompreensíveis. Nascia lá, mas já estava caindo no nosso colo.
Não era um problema deles, era de toda a humanidade.

terça-feira, 7 de abril de 2015

VOCÊ, SEUS AMIGOS, SUA RELIGIÃO, SUAS MARCAS E OUTRAS HISTÓRIAS.

No fundo, é o que conta. Tem razão quem tem a melhor história. É ouvido, compreendido, gostado e lembrado quem tem a melhor história. Mas com tantas histórias pipocando por todo lado, por que alguém se interessaria pela sua?
Do boca a boca até o clique a clique, o que realmente mudou?
Pra se localizar, tem que viajar de Paris a Ouro Preto, de Nova York a Londres, passando por Itu e Varginha. Pra entrar no clima, tem que visitar a Disney vestindo Diesel, teclar um Apple, andar com Johnnie Walker, correr de Nike, acelerar seu Fiat, GM, Ford, Volks, BMW, Mercedes ou quem sabe uma Harley, voar com Red Bull, relaxar de Havaianas, assistir uns seriados HBO pela Sky, tomar uma Coca-Cola, e rezar, porque a força espiritual vem funcionando magnificamente, pelos séculos dos séculos, amém.
Era uma vez o storytelling. Daí pra frente, só lendo o livro.


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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

TOTALMENTE A FAVOR DE SER CONTRA.

Todo mundo tem um lado esquerdo, um lado direito, e uma cabeça em posição equidistante das extremidades. Dentro da cabeça tem um cérebro, cada vez menos usado. Fora dela tem um rosto, que serve para aparecer em selfies.
De uns tempos pra cá, a humanidade resolveu avançar para trás e adquirimos expertise instantâneo para emitir opiniões incontestáveis a respeito de qualquer assunto. Questões religiosas que remontam ao Antigo Testamento passaram a determinar os grandes litígios planetários, pequenas charges de humor puseram a Europa em rota de colisão com o mundo árabe, questões políticas se transformaram em brigas de foice entre cegos, chutamos o balde das conquistas civilizatórias, reduzimos a limites bizarros nossa capacidade de debater sem bater. Como as reservas hidrícas de São Paulo e Rio, ressecamos, e estamos nos lixando para a perspectiva de morrer de sede daqui a pouco.
Escrevo este texto no dia seguinte à execução de um brasileiro na Indonésia, e observei a estranha dificuldade das pessoas serem contra a pena de morte imposta a esse homem, sem que isso signifique serem favoráveis ao tráfico de drogas que ele praticava, ou ao uso político oportunista desse fato pelo governo brasileiro, tão ávido por alguma questão que desvie o foco das intermináveis lambanças protagonizadas por seus representantes.
Isso quando ainda convalescíamos do brutal ataque ao Charlie Hebdo, cujo horror praticamente obrigou o mundo a gostar do trabalho que as vítimas produziam. E ainda juntávamos os caquinhos das eleições, que reduziram o Brasil a um racha entre petralhas e coxinhas.
Bastou a tecnologia possibilitar a manifestação de todos através das redes sociais para que se instalasse um estéril maniqueísmo worldwide a nos impossibilitar o exercício da inteligência.

Por isso, depois de meio ano sem postar nada em meu blog, aqui estou para esclarecer, a quem interessar possa, que:

- Sou flamenguista, mas fico revoltado e envergonhado quando a torcida do meu time se comporta mal.

- Sou brasileiro, mas critico meus compatriotas que falam alto, sujam a rua, não respeitam a sinalização, votam irresponsavelmente, pagam mico quando viajam, e acham que tudo se resolve com jeitinho.

- Sou contra qualquer violência, abomino o terrorismo e defendo ferrenhamente a liberdade de expressão, mas não vejo graça no Charlie Hebdo que, pra mim, pratica um humor tolo, agressivo e de extremo mau gosto.

- Sou contra as drogas e detesto traficantes, mas antes disso respeito a vida, o que me faz encarar a pena de morte simplesmente como barbárie institucionalizada.

- Sou católico, reconheço um monte de falhas na Igreja, curto muitíssimo o Papa Francisco, respeito todas as religiões. E não consigo admitir que os extremistas islâmicos que combatem a educação feminina, atacam escolas, sequestram adolescentes, degolam reféns, matam gente a torto e a direito pelo mundo afora, sejam religiosos de verdade. Porque a selvageria deles contradiz os princípios básicos da própria religiosidade.

- Uso "mas" em minhas tomadas de posição, não para disfarçar meu pertencimento ao lado oposto dos que espumam contra essa singela adversativa. Uso porque o "mas" ilumina outros aspectos que os obcecados se recusam a enxergar. Uso porque gosto e porque quero.

Trocando em miúdos, não sou tão diferente assim da maioria das pessoas. Apenas não gosto da sensação de ser intimidado por tsunamis que se julgam detentoras da verdade. E considero fundamental que todas as portas e janelas permaneçam abertas, para que o oxigênio circule e para que possamos gritar quando nos der na telha: "Sim, eu posso não gostar".

sábado, 26 de julho de 2014

O CARA QUE EMBOLACHOU O JORNALISTA.

O cara que embolachou o jornalista saiu de peito estufado. Orgulhoso por defender a verdade que lhe foi revelada por uma galera ponta firme, da sua idade, que não se deixa influenciar pela mídia nem por ninguém que pense de outro jeito. Uma galera que, como ele, não estava no mundo quando os militares calavam a imprensa com agressões bem mais intimidadoras, nem viu o quanto a imprensa foi responsável pela difusão das informações que vitaminaram a sociedade na luta contra a ditadura, na conquista do direito de votar, no restabelecimento da democracia.
O cara que embolachou o jornalista não faz ideia do quanto se parece com o general/presidente que disse: "Quem não quiser ser livre, eu prendo e arrebento". Não imagina que os ditadores dos anos de chumbo também achavam que faziam um grande bem ao Brasil, que estavam nos ensinando a ser um povo melhor, na marra, debaixo de porrada.

O cara que embolachou o jornalista, depois do seu espetáculo de truculência, foi tomar chopp com o cara do coquetel molotov, o cara que quebra ônibus, o que dispara rojão na cabeça de cinegrafista, o que arranca postes de sinalização e o que saqueia lojas, pra fazerem um balanço de sua contribuição para os destinos do país. 
Não chegaram a conclusão nenhuma. Também pra que que serve esse negócio de objetivo, conclusão? Coisa do passado, papo reacionário.
Basta celebrar a embriaguez do momento e aparecer de montão na mídia. Aliás, compartilha esse link aí, mano, que a galera vai curtir geral!

quarta-feira, 9 de julho de 2014

NÃO APRENDER COM A DERROTA É PERDER DUAS VEZES.



Cada gol da Alemanha, uma fisgada. Dor física mesmo. Foi assim que me senti, usando imediatamente o humor como analgésico (tratamento que recomendo enfaticamente). Fiz piadas sobre a situação, me emocionei com o choro dos torcedores, especialmente as crianças. Achei importante mastigar cada pedacinho do desabamento futebolístico que estava testemunhando (não dá pra evitar a analogia com o viaduto que, bem pertinho do Mineirão, havia provocado uma tragédia de verdade poucos dias antes). No day after, li os jornais com suas manchetes catastróficas, degustei cada artigo, confrontando o impacto da véspera com visões variadas da imprensa nacional e internacional. Chamaria isso de vivenciar o luto, se "luto" não fosse uma palavra forte demais para o fato.
Não tínhamos time, qualquer um enxergava isso. Só que era bom acreditar no milagre da superação, como num enredo de filmes "sessão da tarde". Se a Costa Rica fez o que fez, por que não?
Mas temos, isso sim, um povo campeoníssimo. Um povo que gosta tanto de sonhar que é capaz de encarar qualquer rebordosa. Um povo que salvou a Copa, cobrindo com seu alto astral e capacidade de acolhimento todas as falhas estruturais do evento. Um povo que canta o hino nacional a capela como nenhum outro, e não bota panos quentes em sua seleção quando ela dá vexame, aplaudindo o adversário com lágrimas nos olhos, sabendo perder o jogo sem perder a dignidade.
Somos todos Neymar, claro que sim. Tomamos uma joelhada na coluna, mas daqui a pouco estaremos recuperados, mais maduros e calejados, prontos pra colhermos vitórias no futebol e nos campos que realmente importam. Vivendo e aprendendo a jogar, dizia a música da Ellis. É tóis, Brasil!

*Foto buscada no Google